Instalação de John Akomfrah fala da urgência em salvar a vida na Terra

Uma instalação documental e poética do artista britânico John Akomfrah, sobre o impacto da atividade humana, que é inaugurada na quarta-feira no Museu Berardo, em Lisboa, tem por objetivo sublinhar a urgência de salvar a vida no planeta.

‘Purple’ é o título escolhido pelo artista para instalação, pelo seu interesse pelas cores: “porque o meu trabalho remete para algo que está ‘entre’, tal como o púrpura está entre o azul e o vermelho”.

O projeto, que foi hoje apresentado aos jornalistas com a presença de John Akomfrah, é composto por uma série de fotografias dispostas numa sala que é uma antecâmara da sala de exibição do filme de 62 minutos, em seis ecrãs gigantes.

Na interligação das imagens – atuais e retiradas de arquivos, captadas na natureza e em zonas industriais – o visitante é conduzido através de um percurso pela atividade humana, marcada pela inicial exploração do carvão, e dos primeiros impactos da poluição industrial no mundo, até aos mais recentes.

A devastação ecológica e as alterações climáticas no planeta e os seus efeitos nas comunidades, na biodiversidade e na vida selvagem estão no centro das imagens, que sublinham o impacto nos animais, nas plantas e no Homem.

“Vivemos há décadas um comportamento em massa, destrutivo”, alertou o artista e realizador, na conversa com os jornalistas.

O filme conta uma história que acompanha a vida humana, entrecruzando imagens de pessoas em contemplação da natureza, o quotidiano, os momentos importantes, como o nascimento, e lúdicos, como a dança, e o trabalho.

“A dança é uma das chaves metafóricas do que é ser humano”, comentou o artista, questionado sobre tantas imagens de arquivo sobre a dança presentes no filme.

Por outro lado, também surgem alguns dos “vilões” do filme, como o fumo das fábricas e de cigarros, que está por todo o lado, e provoca a doença e a morte, mas toda a gente parece considerá-lo banal.

Outro elemento importante que atravessa o filme é a água: “Para mim, a água é uma das entidades que mais encerra a questão da memória”.

“Purple” é um seguimento de “Vertigo Sea” (2015), obra de Akomfrah que esteve em destaque na 56.ª Bienal de Arte de Veneza, e forma o segundo capítulo de uma tetralogia cinematográfica sobre a estética e a política da matéria.

Dividida em seis movimentos interligados, a peça combina centenas de horas de filmes de arquivo com filmagens recentes “e um som hipnótico para produzir a instalação de vídeo”.

O filme foi encenado em dez países, numa variedade de paisagens ecológicas em perigo, desde o interior do Alasca à gelada e desolada Gronelândia ou às vulcânicas Ilhas Marselhas no Pacífico Sul, e cada local incita o observador a meditar na complexa relação entre os seres humanos e o planeta.

Numa altura em que, segundo as Nações Unidas, as emissões de gases de efeito de estufa decorrentes da atividade humana se encontram em máximos históricos e as populações sentem um forte impacto das alterações climáticas, “Purple” introduz uma multitude de ideias numa conversa que inclui a extinção de mamíferos, a memória do gelo, o plástico no oceano e o aquecimento global.

Recorda ainda a alteração dos padrões meteorológicos, a subida do nível do mar e eventos meteorológicos mais extremos, como consequências dessas alterações.

John Akomfrah tem vindo a explorar, nas suas obras, o resultado de investigações em tópicos como a memória, a identidade, o pós-colonialismo, explorando também, muitas vezes, a experiência da diáspora africana na Europa e nos Estados Unidos.

O seu primeiro filme, “Handsworth Songs” (1986), foca-se nos motins de Birmingham e Londres, através de filmagens de arquivo, fotografias documentais e noticiários.

Do trabalho mais recente de Akomfrah, fazem parte “Tropikos” (2016), instalação em três ecrãs em referência ao trabalho dos cineastas Stanley Kubrick e de Theo Angelopolous, “Auto da Fé” (2016), filme de época que apresenta uma série de oito migrações históricas ao longo dos últimos 400 anos, e “Airport” (2016), que explora a deslocação atlântica de milhões de africanos até à Grã-Bretanha, num filme de época experimental passado no século XVI.

Nascido em 1957, em Acra, no Gana, Akomfrah vive e trabalha em Londres.

Membro fundador do Black Audio Film Collective (1982–1998), a sua obra é apresentada em museus e exposições por todo o mundo, da Bienal de Liverpool à Documenta 11, em Kassel, do Centro Pompidou, em Paris, à Galeria Serpentine, em Londres, ou a Tate Britain, também na capital britânica.

A instalação estará patente no Museu Coleção Berardo, em Lisboa, até 10 de março de 2019.

 Fonte: Notícias ao Minuto

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